Sadie Woods, artista e curador, Chicago

traduzido por Joana Zaidan

entrevistado por: Courtney Cintron / traduzido por: Joana Zaidan
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Sadie Woods_photo by Eve Hypothesis

As pessoas frequentemente pensam em práticas relacionadas à música como algo de trajetória linear e uni-disciplinar. No século 21, as vidas de muitos músicos e administradores são mais intrincadas em escopo e amplitude do que se imagina. Uma crescente flexibilidade e fluidez permitem mais áreas de intersecções e colaborações. A versatilidade de Sadie Woods inclui arte sonora, DJ e curadoria. Apesar de ter tido uma infância intensamente musical. Woods não retornaria à prática musical antes de explorar as artes visuais e curadoria. Ao retornar à música com um recém-encontrado vigor, Woods abordou seu empreendimento musical através de uma via artística que a permitiu alcançar uma prática conceitual mais profunda e rigorosa; envolvendo assuntos de identidade, raça e conceitos sociais através de uma lente de menestréis, folclore e versos infantis. Ela continua a procurar por experiências culturais e criativas significativas que criem um espaço de liberdade.

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SADIE WOODS FITA MIXTA:

Trilha 1: Luzes do Radio

Estudo de Playground: Miss Mary Mack

https://soundcloud.com/sadiewoods/miss­mary­mack

COURTNEY: Como o fator musical entrou na sua vida durante a infância? Quais foram suas influências musicais?

SADIE: Eu cresci em Chicago, nos bairros de Humboldt Park e Boystown. Em relação à música, eu fui muito influenciada por meus pais. Os dois tocavam música. Minha mãe tocava percussão e colecionava discos e meu pai tocava tudo de ouvido; bateria, piano, violão, composições musicais. Eu aprendi a cantar antes de aprender a falar simplesmente por estar cercada por música. Com certeza a primeira influência foi o funk, como Gap Band, Earth Wind and Fire, Stevie Wonder, Rick James, Prince, Boy George, Cindy Lauper, Donna Summer, Diana Ross, Michael Jackson, Herbie Hancock e Fleetwood Mac. A medida que fui crescendo, fui influenciada por DJs que ouvia no rádio. Eu sempre fui fascinada por rádio e por Djs. Minha mãe e minhas tias davam festas em casa para dançar. Quando elas ficavam em casa com a gente, meus primos, meu irmão mais novo e minha irmã; a gente apagava todas as luzes, deixávamos somente as luzes do rádio acesas, e fazíamos festas de dança no meio da sala.

CC: Como você descreveria seu ambiente musical durante a infância?

SW: Quando eu estava crescendo sempre tinham pessoas entrando e saindo de casa para ensaiar, porque meu pai fazia parte de bandas. Eu passava alguns domingos ouvindo álbuns inteiros com meus pais.

Carros de som e feiras de diversão eram sons comuns porque vivíamos ao lado do parque Humboldt Park. Eu diria que para mim a coisa mais sensacional era ter meu próprio rádio. Eu o colocava na varanda e tocava música bem alto. E também estar em carros com sistema de som – meu pai sempre tinha um sistema de som no carro. E as feiras.. as feiras de diversão sempre tinham música animada, pelo menos era minha impressão como criança. Cada uma das atrações e brinquedos das feiras de diversão tinha seu próprio formidável sistema de som. Eu me lembro daquela sensação. Eu sempre adorei esses sistemas de som massivos; a sensação, as vibrações. Eu gostava de andar pelo bairro, de ir à loja da esquina, e de ter o sistema de som comigo o tempo todo. A gente se arrumava, pegava o carro, ia até a loja na esquina e ligávamos a música.

Trilha 2: Paredes sonoras

Performance de Notas

https://soundcloud.com/sadiewoods/performance­of­notation

CC: Você foi para a Columbia College estudar performance vocal; o que você achava da prática vocal naquela época? Você já estava desenvolvendo uma prática mais ampla em relação à música? O que você levou daquela experiência?

SW: Quando eu estava na Columbia foi a primeira vez que eu estudei canto. Eu tinha estudado um pouco de música no colegial. Eu estava no coral e estudava teoria na escola de gramática. Então eu estudei teoria, canto, composição e depois desempenho em grupo. Então eu comecei a fazer produção, o que eu também aprendia em casa, porque meu pai tinha o software. Minha prática musical começou ali. Eu estava usando um programa que te ajuda a fazer som, mais ou menos como o Match Patch funciona, e depois editando com o Pro Tools. Essas eram as primeiras aulas de música eletrônica do departamento e havia muita resistência, porque eles pensavam que isso iria interferir demais com o treinamento clássico. Isso cresceu agora, eles têm aulas de DJ – é uma loucura.

CC: Quando você estagiou na Marwen, uma organização sem fins lucrativos dedicada à ajudar pessoas carentes através da arte, você começou a experimentar o uso do som em exibições artísticas. O que influenciou essa transição?

SW: Depois da escola eu acabei trabalhando com arte. Durante aquele tempo eu acabei entrando na área de DJ e também da curadoria mais ou menos ao mesmo tempo. Foi uma progressão natural. Eu estava trabalhando na Marwen com colegas e administrando a galeria de ex-alunos. Como eu também havia feito o programa, eu conhecia muita gente. Naquela época, vários dos meus colegas estavam saindo da faculdade e começando a construir novos relacionamentos, e eu os ajudava a organizar seus shows de estreia. Eu comecei a fazer a programação de música para casa exibição ou trazendo DJs ou algum tipo de música ao vivo. Na época eu pensava “isso aqui é um tédio, vamos fazer as coisas acontecerem”. A combinação de música e arte estava atraindo maiores audiências. Era uma experiência diferente da atmosfera silenciosa de uma galeria. Eu gosto de barulho e é assim que eu prospero. Algumas pessoas gostam de ambientes quietos, mas para mim – eu simplesmente não gosto. Eu não fico em um show. Então eu simplesmente senti que eu estava fazendo alguma coisa que era certa para mim. Eu encarava aquilo como – “você não daria a uma pessoa um presente que você não daria a si mesmo”. Com o tempo, através de conversas que fui tendo com algumas pessoas, eu comecei a perceber que tinha toda uma história das artes sonoras e visuais, mas eu só comecei a realmente pensar nisso de forma unificada quando eu entrei na pós-graduação.

Trilha 3: Tudo é Válido no Amor e em DJ

Eu quero dançar

https://soundcloud.com/sadiewoods/i­wanna­rock

CC: Sua carreira como DJ começou logo após a sua graduação na Universidade de Columbia em 2000, o que despertou esse interesse? Como você aprendeu? Como você descreveria sua atuação como DJ naquela época de iniciante? Como a sua atuação se desenvolveu através dos anos? O que você gosta de tocar?

SW: Eu acabei tendo em um relacionamento sério com um DJ depois da escola. Eu acabei fazendo fitas variadas e praticando misturando e escolhendo músicas. Eu estava pensando muito em como construir uma relação entre músicas, o que leva tempo. Aprender como gravar também leva tempo. Meu namorado começou a prestar atenção ao que eu estava fazendo. Tenho certeza que ele achou irritante que eu estava mexendo nas coisas dele e tudo mais, mas ele era chamado para eventos concomitantes então eventualmente ele começou a me colocar sob os holofotes como sua substituta.

Trilha 4: Eu Sou Jovem

Você Me Ouviu

https://soundcloud.com/sadiewoods/you­heard­me

SW: Há dez anos, em 2006, eu entrei no École du Magasin, um curso de curadoria na França. Aquele foi um momento de validação para mim. Então quando eu fui aceita nesse programa, eu pensei “o trabalho que estou fazendo tem importância em um contexto maior do que eu”.

De volta à Marwen, eu estava trabalhando com temas de identidade, cultura Latina, Afro-futurismo, moda. Eu cuidei do conselho de ex-alunos por um tempo e nós fazíamos algumas coisas em conjunto com o conselho de alunos. Eu tentei fazer exibições sobre problemas sócio-políticos. Eu acho que naquela época eu tinha o mesmo tipo de interesses que tenho agora, mas estou mais velha e eu sinto que agora eu posso navegar melhor.

Trilha 5: Integração de caixa de música

https://soundcloud.com/sadiewoods/then­there­were­none

CC: Em 2014 você decidiu voltar a estudar e completar um mestrado em Som na SAIC (Escola do Instituto de Arte de Chicago). O que te levou a voltar para a escola? Como esse tempo na SAIC expandiu sua prática como artista sonora e curadora?

SW: Eu fiz um curso com certificação em Artes Visuais no Centro de Artes Hyde Park e aquilo me preparou para a escola porque eu comecei a pensar sobre som mais criticamente – fazendo perguntas do tipo – Por que estou trabalhando nisso? Por que isso é relevante? O que eu posso oferecer a essa discussão? – Eu não queria fazer qualquer coisa só por fazer. Demorou um certo tempo para eu me considerar uma DJ. Eu me recusava a deixar as pessoas me chamarem de DJ. Era uma coisa de comprometimento – tinha medo de estar reivindicando algo que não estava pronta para ter para mim. Eu comecei a pensar mais em som e indo além de tocar como DJ. Minha motivação para o trabalho evoluiu com o tempo. Quando eu cheguei à SAIC, as pessoas que já sabiam o que eu vinha fazendo começaram a falar comigo sobre a integração das minhas práticas, o que levou algum tempo para eu processar. Eu não sabia o que aquilo queria dizer ou que cara aquilo teria – como funcionaria e, será que seria possível? Em trabalhando com caixas de som, existe a tecnologia; em juntando amostras para fazer loops, existe a composição, e tem o aspecto escultural na construção das caixas. E é também uma curadoria, porque escolho músicas específicas para usar. Então esse foi o começo. Depois comecei a seguir a linha de estudo da história da arte dos menestréis, porque achava interessante e me ajudou a entender meu desencanto com a música que eu tinha estudado na faculdade – aquela idéia de que temos que ser moldáveis e de que temos que nos encaixar em um certo tipo de estilo ou personagem para ter sucesso. Assim eu comecei a olhar para um mercado pioneiro voltado à identidade. E também conectando essas idéias à cultura infantil, à cultura das ruas e às histórias orais que são passadas adiante.

Trilha 6: Você já foi experiente?

Você sabe que sou problema

https://soundcloud.com/sadiewoods/you­know­im­no­good

CC: Você foi curadora de várias exposições e shows durante seu tempo aqui na SAIC. Muitos dos seus trabalhos recentes, estou pensando em Hot 7: Mestiços de Chicago e Experiência Negra lida diretamente com comunidades da imigração de africanos e latinos. Você poderia falar mais um pouco sobre sobre esse trabalho no contexto sócio-político atual, e o que você espera que a SAIC assim como outras comunidades levem consigo dessas exposições?

SW: A exposição Hot 7 é uma exposição que venho trabalhando e desenvolvendo por seis anos e eu a modernizei para tentar encaixá-la nesses diferentes moldes institucionais. Eu estava empenhada em fazer em Nova Yorque porque eu estava muito animada sobre Welcata e o Centro Caribenho de lá. Não aconteceu. Então tive a oportunidade de apresentar a exposição na escola. Eu resolvi fazer o show e trabalhar com artistas Latinos porque tenho uma equipe com quem venho trabalhando que eu sei que pode produzir trabalho. Eu também estava interessada em apresentar artistas de Chicago na escola porque eu sinto que existe uma desconexão entre a cultura local e membros transitórios na SAIC. Talvez eu esteja errada, mas na época era uma coisa que eu realmente queria fazer. Eu conheci algumas pessoas na SAIC que eram daqui e que estavam morando aqui há algum tempo e que também eram ex-alunos. O show explorou temas atuais do que vem acontecendo nas comunidades Latinas de Chicago, particularmente em Humboldt Park e Pilsen. São os bairros de onde todos os artistas que estavam no show vieram ou estão se mudando. Meio que aconteceu assim.

Experiência Negra começou com uma conversa entre Norman, Elysa e eu, e de repente pensamos “legal, vamos fazer isso.. vamos fazer uma festa”. Depois começamos a conversar com outros estudantes na SAIC e eles pareciam estar preocupados com sentimentos de isolamento e falta de conexão na comunidade e também em conhecer outros estudantes negros – o que é importante.

começar a nos conhecermos – entre as idades e as disciplinas, de alunos da faculdade à pós-graduação e ao corpo docente. Os funcionários também eram importantes. A gente teve muito suporte e fomos bem aceitos pela administração da escola.

Trilha 7: Mestiço

Cuba

https://soundcloud.com/sadiewoods/cuba

CC: Que tipos de questões sócio-políticas internas e externas te levaram a se envolver com o trabalho através das lentes de identidade e raça?

SW: Eu estive pensando e ainda estou formulando meus pensamentos. Mas só de ter crescido numa situação social e acadêmica diferente, coisas básicas como se auto-identificar ao preencher um formulário escolar, ou tentar uma bolsa de estudo – a experiência de negros e Latinos é sempre ser separado. Nem sempre você tem a opção de ter os dois nesses espaços. Eu também acho que o mercado da educação e da arte muitas vezes é o mesmo.

As conversas são extremamente divididas e é difícil para mim me encaixar em uma coisa ou na outra. Muita gente é mestiça e parece que isso não é reconhecido, o que para mim é uma loucura. Acho uma loucura quando vejo essa mentalidade sendo passada adiante às pessoas mais jovens. Minha conversa acontece no meio.

Trilha 8: Era  de  Aquarius

Reestruturando Visibilidade

https://soundcloud.com/sadiewoods/reframing­visibility­mix

CC: Cantando, tocando como DJ, e arte Sonora são ferramentas que você usa para transmitir sua mensagem e se engajar com várias comunidades. O que vem agora para Miss Woods? E como você imagina que essas plataformas podem continuar a se reunir?

SW: Eu peço a mim mesma que foque em fazer trabalhos significantes. Eu nunca vou querer fazer um trabalho fraco. Eu venho internalizando questões que são importantes para mim e estive pensando sobre a minha voz e em reconectar com coisas que são excitantes. Eu diria que a maior lição, e ainda estou aprendendo, é sempre confiar no seu processo. Talvez você não saiba qual será o resultado final, mas aprender a se desapegar é a chave. Você não tem o controle, mas aprender a confiar em si mesma e nos próprios instintos e a integrar coisas diferentes e a reconectar consigo mesma tem sido meu foco durante os últimos três anos.

Aprender através do compartilhamento me ajudou a perceber que outras pessoas se sentem da mesma forma que eu a respeito de muitas coisas e eu tenho abraçado mais isso… de novo, confiando em si mesma.

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CC: Qual é o seu animal spiritual?

SW: Eu sempre fui encantada por cavalos-marinhos. Eles parecem místicos. Pode ser uma combinação entre ter um signo de água e de gostar de cavalos.

 

  • traduzido por Joana Zaidan